quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Sumário 3

Por Alexandra Antunes(26/10)

1.No mundo da edição. Retomando alguns conceitos e definições.
Na sequência da aula anterior foi retomado o debate sobre alguns conceitos de enorme relevância, a saber:
- Quando é que um livro é um livro para o Estado? Quando tem mais de quarenta páginas, o que consiste numa definição legal de livro. No entanto, isso não significa que os restantes livros existentes não sejam livros pois existem inúmeros exemplos de casos em que a totalidade de páginas de um livro é inferior ao número estabelecido por lei.
Apesar de a presente cadeira dedicar a maior parte do seu tempo à edição de livros em papel, convém não esquecer a importância das edições periódicas (e das diárias) nas quais o papel do editor e respectivo processo de edição merecem, também, grande destaque. E já que falamos no mundo das edições periódicas e diárias, aproveitamos para referir que a importância do livro para os media não tem sido a mesma ao longo dos tempos, principalmente nos últimos dez anos. Por exemplo, um jornal de referência, há dez anos atrás, tinha um suplemento de quarenta páginas dedicado ao livro e à crítica literária; na actualidade, esse mesmo jornal dedica ao livro apenas duas páginas. Também extinta há três anos foi a prestigiada «Colóquio Letras» e a editora & etc tinha uma revista literária que infelizmente já não existe. O que existe, nos dias que correm, são somente recensões críticas sobre os livros que saem…
- O autor é a entidade mais previsível, isto porque qualquer pessoa poderá vir a sê-lo. Todavia, a definição de autor varia bastante, dependendo sempre do tipo de obra/livro que o autor produz. E quando é que o autor termina a sua obra? Quando afirma a ter acabado e quando a dá ao editor.
É bem provável que um autor de poemas seja o único a amar verdadeiramente o seu livro de poemas… mas é muito raro dar-se o caso de um editor sacrificar a sua vida por um autor…
Convém relembrar que a marca estilística é uma característica da literatura e não da autoria, isto porque existem autores que apagam essa mesma marca.
A opção estilística é o erro de quem domina a regra. Exemplos disso são dois conceituados escritores, António Lobo Antunes e José Saramago.
- O editor é uma definição abstracta para designar a pessoa responsável pelo fazer do livro. É ele quem estabelece a relação entre o autor e o leitor tratando de todos os processos, desde a chegada do livro em manuscrito à editora até, por fim, chegar às mãos do leitor. Todo este trabalho em que o editor está envolvido, no fundo, acaba por fazer dele uma espécie de casamenteiro colocando-o, ao mesmo tempo, numa relação que se pode apelidar de triângulo amoroso.
De facto, há casos em que um artista casa com o seu agente/editor (temos exemplos disso não só na literatura mas no teatro, cinema, etc.). Todavia, e em princípio, o editor está sempre um passo mais afastado, isto é, nunca chega a envolver-se com tanta profundidade. Por essa razão, como disse a nossa colega Ana Reis, um editor poderá ver um livro como seu filho adoptivo.
Citação: «Um grande editor deve olhar para o céu mas ter os pés bem assentes na terra.»
- O mundo da edição é uma área na qual amadores, nos dois sentidos da palavra (o competente e aquele que ama) e profissionais se tocam.
Paradoxo: Actualmente, num emprego, quanto menos competências têm as pessoas, mais tarefas e de maior responsabilidade lhes são atribuídas.
Observação A: Também é verdade que estamos a viver numa época na qual ocorrem imensos despedimentos de funcionários obrigando aqueles que continuam na empresa a trabalharem mais e por menos dinheiro…
Sugestão de cinema: «Broadway Danny Rose», de Woody Allen. Filme que se insere na terceira fase do realizador e com o qual podemos aprender bastante sobre o mundo da edição; a figura do agente cruza-se com a do autor.
Pensamento: As ideias levam tempo a nascer, a desenvolver e a morrer; o facto de a lei mudar não significa que mudem as nossas cabeças.
Problema: Porque é que existem guerras? O Professor deu-nos a solução para acabar com elas! Vejamos: Quando alguém quiser o mesmo emprego para o qual nos estamos a candidatar, deixemos essa pessoa ficar com ele; há alguém que nos passa à frente na fila do supermercado? Pois deixemo-la passar! E se formos assaltados? Bom, se calhar o assaltante até tinha as suas razões para agir como tal…

2.Apresentação do colega Carlos Serra: Exemplo de pequeno grande editor.
A & etc é uma pequena editora de culto, com um perfil bem definido, que edita essencialmente textos e autores de cariz alternativo. Dirigida desde 1974 por Vitor Silva Tavares, mantém até hoje uma política de baixas tiragens, editando não mais do que dez livros por ano, sem reeditar os seus títulos esgotados.
Esta editora não tem quaisquer fins lucrativos e o dinheiro que faz é utilizado para a edição dos livros seguintes. Trata-se de uma editora totalmente independente na qual a existência de computadores ou sistema informático é praticamente nula. Não tem copyright, e o editor mantém uma postura um pouco à margem. Mas a verdade é que este pequeno grande editor tem conseguido manter de pé a sua editora já lá vão trinta e cinco anos – facto que se deve aos poucos custos e a uma renda muito baixa.
A & etc foi a primeira editora em Portugal a editar os primeiros autores surrealistas portugueses, tais como Alexandre O’neill e Mário Cesariny, e no seu catálogo constam autores portugueses e estrangeiros entre os quais destacamos Alberto Pimenta, João César Monteiro, Álvaro Lapa, Herberto Helder, António Ramos Rosa, Paul Lafargue, Antonin Artaud, Rilke, Sade, Trotski ou Roger Vailland.
Apesar dos poucos recursos informáticos, os seus livros, de carácter artesanal, apresentam um formato singular, pequeno e quase quadrado, com um grafismo e produção cuidados.
O seu número de tiragens, como foi referido, é bastante pequeno, principalmente se compararmos estes números com aqueles que saem anualmente de uma grande editora de que é exemplo a D. Quixote. Contudo, não obstante esse facto, as suas pequenas tiragens têm grande qualidade, daí o editor ser pequeno (pela quantidade) mas grande (pela qualidade).
Enigma: Há três pessoas que vão a uma entrevista para concorrer a um cargo dirigente numa empresa de Gestão. É-lhes feita a seguinte pergunta: 2 + 2 = ?
a)O primeiro candidato, licenciado em Economia, responde 2;
b)O segundo candidato, com um MBA em Gestão, responde 11;
c)A terceira candidata, professora do liceu e licenciada em Filosofia, responde 2 ou 11 dependendo da situação/contexto.
Qual dos três candidatos ficou com o lugar? Todos os alunos que responderam a este enigma escolheram a candidata c) mas na verdade a resposta mais acertada seria nenhum. Quem ficou com o lugar foi o primo do Director que não possuía sequer um curso!
Após os alunos terem respondido por escrito à pergunta “O que é um tradutor, revisor, paginador, etc.” procedeu-se ao exemplo de um livro da editora & etc. Falou-se, também, na questão das tiragens e dos editores ambiciosos: quanto maior a tiragem de um livro, mais dispendiosa é a edição de cada exemplar. 7000 exemplares é um bom equilíbrio entre ousadia e um certo temor…
Observação final: O grande defeito das editoras marginais é que apesar de serem excelentes não nos dão emprego.
Equação visual: X (f, g, h, y…) =
Significa isto que podemos encontrar as mesmas funções (em abstracto) quer numa pequena editora, quer numa grande editora mas com a diferença de que, de um lado temos apenas uma pessoa, do outro temos várias.
Anedota A: Usamos alta tecnologia (os telemóveis) para passar mensagens iguais às do homem das cavernas:
- Está?
- Estou.
- Estás aí? Estás porreiro?
- Sim, estou aqui.
- Ah, pois é, estou a ver-te!
Anedota B: O livro pode não servir apenas para ler mas igualmente para outras coisas; por exemplo, um livro pode servir-nos de arma. Vejamos: se formos para o Cais do Sodré com uma faca na mão corremos o risco de sermos presos, porém, se levarmos um livro, para além de não irmos presos, ele poderá servir-nos como arma de defesa pessoal. Há é que saber manuseá-lo de forma a saber atingir na perfeição o atacante!

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